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Mogi: campo de pesquisa para a febre maculosa

O holofote direcionado à febre maculosa dá oportunidade de se conhecer um programa de prevenção a arboviroses da Prefeitura de Mogi das Cruzes e os resultados de uma pesquisa que confirma a importância da preservação de fragmentos de vegetação no entorno da Mata Atlântica para o controle de doenças que têm como vetores insetos e […]

24 de junho de 2023

Reportagem de: O Diário

O holofote direcionado à febre maculosa dá oportunidade de se conhecer um programa de prevenção a arboviroses da Prefeitura de Mogi das Cruzes e os resultados de uma pesquisa que confirma a importância da preservação de fragmentos de vegetação no entorno da Mata Atlântica para o controle de doenças que têm como vetores insetos e aracnídeos, caso do carrapato. 

LEIA TAMBÉM: De 2020 a 2022, Alto Tietê teve 4 casos confirmados de febre maculosa e 2 mortes

A cidade completa  25 anos do registro das primeiras mortes reconhecidas oficialmente como febre maculosa neste 2023, quando  o surto na Fazenda Santa Margarida, em Campinas, tornou de interesse o assunto e os carrapatos que transmitem a doença grave, se não for identificada rapidamente. 

 Carrapatos são os hospedeiros de bactérias do gênero riquétsia (Rickettsia) que transmitem esse tipo de febre. Causa de quatro mortes e casos suspeitos sentidos por pessoas que estavam na mesma festa, em Campinas, despertou curiosidade e o temor pela zoonose apontada pelo Ministério da Saúde como endêmica na Região Sudeste. Na cidade, há um controle perene com a coleta de amostras em carrapatos em pontos como praças, parques e situações como infestações comunicadas por moradores. Porém,  a prevenção requer cuidados pessoais da população. 

A atenção desta doença assim como como dengue, zika, febre amarela e outras é executado pelo Núcleo de Prevenção de Arbovirose, braço do Centro de Controle de Zoonoses, o CCZ. 

Apesar de a febre maculosa ocorrida em Mogi das Cruzes, com rastros consistentes – a morte de 8 pessoas e a confirmação de 15 casos – não ter o mesmo agente transmissor  do episódio em destaque no noticiário atual, a prevenção pessoal talvez seja a principal arma de controle recomendada aos mogianos. Aqui, o carrapato da espécie Amblyomma aurelatum, que pode levar a bactéria para dentro de casa por um cachorro que frequente áreas próximas de matas, é típica do bioma da Mata Atlântica – diferente do carrapato-estrela,  o Amblyomma Cajennense, presente em outras regiões do Estado, como Campinas.

Em resumo, para entender esse dilema que exige conhecimento e ações para a identificação do sintoma da febre maculosa (leia mais nesta página): o vetor que originou a criação de uma política de vigilância em zoonoses após as mortes acontecidas no Distrito de Taiaçupeba é o carrapato-de-cachorro ou vermelho. 

Ciência e ação

Então a cidade e outros municípios estão livres dessa doença? Quem dera fosse simples assim. A resposta é não porque a proximidade dos hospedeiros, como as capivaras e outros mamíferos (que carregam o carrapato-estrela) ou o cachorro-do-mato (que carrega o encontro em Mogi) amplifica as condições de contágio enredadas pelo fim de barreiras geográficas e de convivência entre a vida animal e rural e a urbana.

A pesquisadora

Essas e outras ponderações são da médica veterinária Débora Fumie Murakami, que desde 2007 atua na prevenção das arboviroses na Prefeitura de Mogi, no setor criado em 2005. 

As mortes e notificações da infecção originada por uma picada do Amblyomma aureolatum conduziram a Secretaria Municipal de Saúde a aplicar medidas  de rastreamento que envolveram o mapeamento da área ao redor das moradias onde 6 pessoas morreram, no distrito de Taiaçupeba. 
Durante anos, exames clínicos, a aplicação de carrapaticida nos cães e visitas e a conscientização de moradores da região fizeram parte da ação do município, como afirma Débora.
Atualmente, segundo ela, nos exames da população canina em áreas vulneráveis houve uma baixa de soropositividade da bactéria que baixou de 83% para 0,3%. “Mogi não é considerada uma área endêmica, não há uma infestação da bactéria, mas uma pessoa que estiver em um local errado, em uma hora errada, por ser infectada por um carrapato”, pontua. A probabilidade desta doença é baixa, continua a veterinária. Na festa de Campinas estavam cerca de 3,5 mil pessoas, porém, algumas foram picadas por animais infectados. É por isso que a prevenção  é frequente, com o mapeamento de exames em animais e monitoramento de casos.

A febre de Mogi

A veterinária Débora Murakami adverte para uma outra realidade que sempre preocupa os pesquisadores sobre a redução das áreas de mata e o adensamento das cidades. Ela é autora da pesquisa “Delimitação Preditiva de Áreas de Risco para Casos de Febre Maculosa Brasileira a partir de Análise de Imagens”, feita na Unesp.

Tomando como base três regiões com diferentes graus de cobertura de vegetação de Mogi das Cruzes e o levantamento sorológico de 317 cães, a pesquisa buscou classificar as regiões quanto ao risco de transmissão da doença por meio da circulação da bactéria Rickettsia rickettsii. As análises apontaram que a soroprevalência variou de 82,32% a 0% entre as regiões. E, como conclusão, demonstrou que bairros mais preservados, com menor fragmentação (redução ou eliminação) florestal, têm menores chances de ocorrência de casos da febre maculosa em relação a áreas com maior fragmentação (perda de vegetação), sugerindo relação entre a soroprevalência de infecção em cães domésticos e o grau de degradação. “Em uma área urbana sem a presença de fragmentos verdes  por entre moradias e condomínios, os riscos são maiores para a circulação da infeção”, alerta. Ou seja, para essa e outras doenças, exige o cuidado pessoal, a manutenção de políticas de prevenção feita pelo município e pesquisas. 

 

Após picada, infecção se dá entre três ou quatro horas

Enquanto a esporádica notificação de doença que aparentemente está restrita a determinadas áreas, como a região rural – a ideia de se “pegar um carrapato” está sempre ligada à vida no campo – aparece de tempos em tempos para mobilizar a opinião pública, o mapeamento de riscos não para em setores pouco conhecidos, como é o Núcleo de Prevenção a Arboviroses, que possui 35 servidores.

Estão sob a responsabilidade do setor a prevenção e combate de doenças causadas por picadas de insetos, como o Aedes aegypti, que está ligado à dengue, zika e chikungunya, ou pelo carrapato, que é um aracnídeo.

A quem vive tanto no campo como na região urbana,cuidados pertinentes como o controle dos carrapatos são indicados pela médica veterinária Debora Fumie Murakami.

Como os cães são hospedeiros (assim como bois, cavalos e outros animais), infestações podem ser   prevenidas com carrapaticidas.

Os carrapatos são seres parasitas muito resistentes que vivem do sangue alheio.

A fase atual do ano, com meses mais frios até novembro,  é propícia para a transmissão da doença (se o aracnídeo estiver infectado) porque a espécie está ainda no estágio de larva, quando é chamado de micuim, e pode estar infectado. “Essa é a fase dos micuins e, por serem muito pequenos, as pessoas podem não perceber a sua presença na pele”.

As pessoas que visitarem áreas de mata e campo devem fazer uma varredura pelo corpo para observar a presença de algum carrapato (que não deve ser espremido, mas retirado com pinça).

Depois de fixado na pele, ele pode levar apenas de três a quatro horas para infectar o homem. O danoso é que a pessoa pode não perceber que carrega o inimigo tão pequeno e voraz. 

Fale com o médico

Embora seja de tratamento seguro e com um medicamento de baixo custo, a febre maculosa pode levar o paciente a óbito se não for tratada rapidamente. 

Por isso, a médica afirma que ao sentir os sintomas e já sabendo que esteve em área de mata ou em contato com cães desconhecidos, isso deve ser relatado ao médico, em um serviço de saúde. Outro alerta é para as equipes de saúde que precisam incluir perguntas sobre onde o paciente esteve nos últimos dias para identificar possível caso de febre maculosa.

Campinas x Mogi

Epidemias e pandemias, como a recente que balançou o mundo, ajudam a entender porque “a ciência e a vida cotidiana não podem e não devem ser separadas”, como entendia a química britânica Rosalind Franklin (1920 – 1958). 
O presente surto de Campinas não chegou a Mogi (mas, há casos em análise em cidades vizinhas), o passado lembra que o conhecimento sobre o surto havido anos atrás deveria sustentar campanhas para divulgar uma situação controlada. Porém, a vida silvestre tão próxima de todos implica em condição para o surgimento de outros males causados por bactérias, inclusive as desconhecidas. 

 

Dicas da dra. débora

Não há como intervir no ciclo de vida da  natureza, ainda mais com o fenômeno vivido em todo o mundo  e marcado pela adaptação e sobrevivência de espécies silvestres no meio urbano.

Por isso, o cuidado pessoal e o acesso ao conhecimento ganham destaque em episódios epidêmicos:

Não entrar na mata sem proteção como repelentes e roupas adequadas: blusas de manga comprida, botas ou, se usar tênis, envelopar a calça com a meia, para inibir a entrada de insetos ou carrapatos.

Moradias em áreas rurais devem ter o mato aparado próximo do imóvel.

Cães e outros animais devem usar coleiras carrapaticidas 

Ao observar infestações de carrapatos, serviços de saúde, como o Centro de Controle de Zoonoses, devem ser avisados – o combate é feito pelo proprietário do imóvel, mas técnicos poderão orientar e realizar análises para identificar o tipo do carrapato.

Comunicar ao médico, caso sinta os sintomas, que esteve em área de mata ou campo.

Os sintomas da febre maculosa são: febre alta e súbita, dores de cabeça, abdominal e muscular, manchas avermelhadas no corpo, além de erupções no local da picada do carrapato. O período de incubação da doença é de 2 a 15 dias.

 

Região registra 4 casos confirmados e 2 óbitos desde 2020

Antes do surto registrado em Campinas, entre 2020 e 2022, na região do Alto Tietê, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) informa que foram confirmados 4 casos de febre maculosa: um em Mogi das Cruzes (2020), um em Santa Isabel (2020) e dois em Guararema (em  2021 e 2022). Neste período, foram registrados dois óbitos na região: 1 em Santa Isabel (2020) e 1 em Guararema (2021). Em 2023, Santa Isabel aguarda o resultado de exames de 4 casos suspeitos.Guararema registrou 8 suspeitas, sendo três negativadas, e cinco à espera dos resultados – na cidade, nenhuma pessoa esteve em Campinas. 

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