Presidente eleito por computador. Isso pode?
Histórias do folclore político costumam misturar realidade e ficção, como acontecia na época da ditadura, período em ganharam especial notoriedade os livros do jornalista Sebastião Nery, com histórias pitorescas envolvendo personagens – conhecidos ou nem tanto – da cena política brasileira. Nery costumava publicar os casos que ele, como repórter político, anotava em suas andanças […]
25/06/2021 14h56, Atualizado há 62 meses
Histórias do folclore político costumam misturar realidade e ficção, como acontecia na época da ditadura, período em ganharam especial notoriedade os livros do jornalista Sebastião Nery, com histórias pitorescas envolvendo personagens – conhecidos ou nem tanto – da cena política brasileira.
Nery costumava publicar os casos que ele, como repórter político, anotava em suas andanças pelo Congresso e pelo País, assim como ouvia de terceiros.
Por essas e outras, as histórias do folclore, que costumam correr de boca em boca, nem sempre revelam compromisso com a verdade.
É o caso, por exemplo, resgatado pelo jornalista Euler de França Belém, do jornal Opção, de Goiás, que lembra uma história envolvendo a escolha do general Ernesto Geisel para presidente, o penúltimo do período ditatorial iniciado em 1964.
Contava-se, em Brasília, que estava difícil encontrar um militar que agradasse tanto a linha dura, que estava no poder, quanto a mais moderada, que mesmo fora do comando, já ganhava certa influência, com as pressões populares pela redemocratização.
A saída foi escolher o futuro presidente pelo computador que, à época , ocupava quase uma sala inteira.
Digitaram lá: “Queremos um militar da linha dura!”.
E o computador respondeu: “Encontrado”.
“Queremos um general do Exército, com quatro estrelas”.
E o computador respondeu: “Achado”.
“Queremos um general honesto!”.
O computador chacoalhou e, supostamente, indeciso, disse: “Honesto? Não encontramos. Ernesto serve?”
E aí o general Ernesto Geisel foi indicado.
Puro folclore, pois não se teve notícia de desonestidade praticada por ele, durante a passagem pela presidência, quando teve início para valer o processo de abertura política que seria concluído por João Figueiredo.
O jornalista Elio Gaspari, conta a verdadeira história.
Não havia consenso a respeito do sucessor de Médici. Falava-se em vários nomes, mas ele estaria indeciso.
Médici foi se aconselhar com o general Orlando Geisel sobre o seu irmão, Ernesto. Recebeu, é claro, informações positivas.
Foi então ao general João Figueiredo para saber se Ernesto e Golbery do Couto e Silva eram próximos. Médici odiava Golbery, considerado “democrático demais” pela linha dura.
Figueiredo lhe garantiu que os dois estavam afastados.
Era o que esperava ouvir.
Médici bancou Ernesto Geisel para presidente. Ao assumir, ele contrariou a todos. O primeiro ministro nomeado foi Golbery.
Figueiredo, descobriu-se depois, jogava no time de Geisel e Golbery, e acabou recebendo o seu prêmio alguns anos mais tarde, quando foi indicado para substituir Geisel e completar, meio na marra, o processo de abertura política iniciado pelo seu antecessor no cargo.
Essa sim, a história real, contada por Gaspari em sua série de livros sobre a mais recente fase da ditadura brasileira.