Moção de Lintz contra artista gera tumulto na Câmara e bate-boca entre vereador e público
Texto aprovado repudia o cantor Johnny Hooker por desrespeitar a fé cristã; público presente chamou Lintz de "fascista" e vereador retrucou aos gritos de "cala a boca" e "vagabundo"
10/09/2025 10h26, Atualizado há 7 meses
Bate-boca entre Lintz e público presente tomou conta da Câmara | Reprodução/Redes sociais
A aprovação da Moção n.º 152/2025, que repudia as declarações do cantor Johnny Hooker, na Câmara de Mogi das Cruzes, durante a sessão ordinária desta terça-feira (9), foi marcada por tumulto e uma discussão acalorada entre o vereador autor do texto, Felipe Lintz (PL), e o público presente na galeria do plenário. Por conta da confusão, a sessão precisou ser suspensa para que os ânimos fossem contidos.
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Segundo o texto apresentado pelo vereador, a moção repudia falas de Johnny Hooker “consideradas ofensivas à fé cristã“. O texto cita um episódio da edição de 2018 do Festival de Inverno de Garanhus (FIG), em Pernambuco, onde Johnny afirma que Jesus era “bicha“, “travesti” e “transsexual“. A declaração foi dada enquanto o artista protestava contra a censura de uma peça teatral, como alusão ao fato de que Jesus estaria em todas as pessoas independentemente.
Ao iniciar a sua fala antes da votação, Lintz exibiu o trecho do festival onde Hooker dispara a frase e se provocou o público presente no plenário, que protestava contra o documento. “É engraçado que eu vejo aqui alguns manifestantes: tem dois de cabelo verde e um com chapéu de Peter Pan. E detalhe: são 16h, então coisa boa não devem fazer da vida“.
Lintz também disse que era “inaceitável” a ideia de receber o artista na cidade e que seu posicionamento não trazia nenhum viés homofóbico, apenas de repúdio ao “desrespeito” à religião cristã teria sido praticado pelo artista. Johnny Hooker, vale ressaltar, está entre as atrações do Sesc de Mogi das Cruzes, com um show agendado para o dia 20.
Na hora da votação, apenas 12 vereadores estavam presentes no plenário, com os demais deixando o local para se abster de votar. Estavam presentes os vereadores:
- Clodoaldo Moraes;
- Felipe Lintz;
- Fernanda Moreno;
- Iduigues Martins;
- Inês Paz;
- Francimário Viera, o Farofa;
- Juliano Botelho;
- Maurinho;
- Mauro Araujo;
- Tonhão;
- Bigemeos;
- e Vitor Emori.
Destes, apenas Inêz Paz (PSOL) e Iduigues Martins (PT) votaram contra a moção de repúdio. Após a aprovação do texto, Lintz pediu novamente para usar a palavra, momento em que a confusão teve início. Assim que começou a falar, o público presente na galeria do plenário protestou contra a moção chamando Lintz de “fascista” e o acusando de atacar a liberdade de expressão do artista.
O vereador, visivelmente irritado, retrucou o público, mandando um dos representantes “calar a boca” e o chamando de “vagabundo“. Por conta da confusão, o presidente da casa, o vereador Farofa (PL), suspendeu a sessão. Veja imagens do momento:
Repercussão
Logo após o término da sessão, o Fórum Mogiano LGBT+ publicou uma nota de repúdio (leia na íntegra aqui) contra o vereador. Na publicação divulgada nas redes sociais da entidade, o Fórum afirmou repudiar “veementemente a conduta do vereador” e criticou as falas do parlamentar. Além disso, o Fórum afirmou que a iniciativa do vereador é uma “tentativa de criar polêmica artificial“.
“No início de seu discurso, antes mesmo de quaisquer protestos, o vereador se dirigiu a um jovem LGBT+, Leão, produtor cultural da casa Over Drive, e outros, chamando-os de “cabelo verde” e “chapéu de Peter Pan”, além de associar ao uso de drogas. Essas ofensas pessoais indicam viés homofóbico e total desrespeito à dignidade da comunidade LGBTQIA+.”
A entidade afirmou, ainda, que “todas as medidas cabíveis serão adotadas junto ao Ministério Público e à Câmara Municipal” e que acredita que a o episódio se caracteriza como “violação ao decoro parlamentar e prática discriminatória“.
O que dizem os citados?
A redação do O Diário procurou a assessoria de imprensa da Câmara de Mogi das Cruzes, do vereador Felipe Lintz e do cantor Johnny Hooker para comentarem sobre o caso.
Em nota à imprensa, Lintz disse que o texto de sua autoria “não se trata de censura, nem de impedir apresentações artísticas” e ressaltou que “as declarações ofensivas do artista Johnny Hooker jamais poderão ser esquecidas”. O vereador, entretanto, não comentou sobre as falas antes da votação, pontuadas como ataques pelo Fórum Mogiano LGBT+.
“O show é livre. O que não pode ser livre é a ridicularização daquilo que é sagrado para a maioria da população. A moção de repúdio apresentada é um gesto simbólico, mas necessário, para afirmar que Mogi das Cruzes não esquece e não aceita ataques à sua fé. O cristianismo — em suas expressões católica e evangélica — faz parte da formação cultural do nosso povo e não pode ser banalizado por provocações.”
Sobre a confusão na Câmara, Lintz disse que o episódio foi causado “porque alguns manifestantes acreditaram poder fazer o que quisessem dentro da Câmara Municipal” e se referiu ao caso como “um desentendimento“. O vereador concluiu dizendo que reafirma que “Mogi das Cruzes é uma cidade de tradição cristã, e que a memória de quem tentou ridicularizar a fé jamais será apagada“.
A Câmara Municipal e o cantor Johnny Hooker, até o momento, não se manifestaram a respeito do episódio. A matéria será atualizada assim que houver a manifestação oficial destes sobre o tema.
*Matéria atualizada às 12h14 para inserção da nota à imprensa de Felipe Lintz.