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Ataque em escola de SP acende alerta sobre violência em unidades de ensino

O ataque à escola estadual Thomázia Montoro, na Vila Sônia, em São Paulo, que tirou a vida da professora Elisabeth Tenreiro, 71 anos, e deixou quatro feridos, nesta segunda-feira (27), coloca educadores, famílias e toda a comunidade em alerta para a problemática envolvendo o ambiente escolar, que deveria ser marcado pela convivência harmônica, colaboração, aprendizado […]

2 de abril de 2023

Reportagem de: O Diário

O ataque à escola estadual Thomázia Montoro, na Vila Sônia, em São Paulo, que tirou a vida da professora Elisabeth Tenreiro, 71 anos, e deixou quatro feridos, nesta segunda-feira (27), coloca educadores, famílias e toda a comunidade em alerta para a problemática envolvendo o ambiente escolar, que deveria ser marcado pela convivência harmônica, colaboração, aprendizado e espírito de equipe, e não pela insegurança e intolerância. 

Segundo Vania Pereira da Silva, coordenadora da Subsede do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Commulher), a situação nas escolas está muito fora do comum. “Os mediadores de antigamente não existem mais e o Estado diz que tem o programa Conviva, em que o vice-diretor faz essa mediação, mas isso é irrisório, porque pelo cargo que ocupa, não tem tempo para conciliar este outro trabalho, que exige várias atividades, como atenção ao bullying, preconceito, intolerâncias, agressões. Então, nada tem sido feito neste sentido”, aponta.

Vania acrescenta que a maioria dos funcionários vive sobrecarga de funções nas escolas. “Além das inúmeras atividades burocráticas e pedagógicas é complicado cuidar dos conflitos. Há tempos estamos alertando para o número de alunos por sala, que poderia minimizar este problema, porque hoje vive-se uma situação em que não se pode encostar no outro, que já vira agressão. Temos que tomar cuidado, porque, infelizmente, a escola não é mais aquela de antigamente, que tinha uma estrutura de relacionamento interno e externo, com acompanhamento psicológico. Este distanciamento só prejudicou”, lamenta.

Além do bullying, intolerância religiosa, racismo, homofobia, transfobia, entre outros, Vania aponta o machismo como um dos principais problemas no ambiente escolar. “Estive em uma escola onde a denúncia era de que os alunos beijavam forçadamente as alunas. Como vamos mediar este abuso? Não é com a proposta que o governador colocou de trazer policiais reformados para dentro da escola.Precisamos ter uma escola atrativa, que dê conta não só do conteúdo, mas de colocar questões da vivência, da sociedade, na pauta do dia a dia, para que os alunos tenham consciência do que é viver em sociedade, de seus direitos e deveres”, avalia. 

Para isso, ela considera que famílias e escolas precisam caminhar juntas na formação do aluno como cidadão. “Além de palestras, rodas de conversa e escuta aos alunos, ações preventivas devem ser realizadas com informações do que é certo ou errado”, conclui Vania.
Após o recente ataque à escola da capital, o Governo do Estado anunciou que irá intensificar o Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva), criado em 2019, e retomar o programa Psicólogos na Educação, com suporte psicológico para orientar equipes escolares e estudantes. O processo está em cotação de preços e a licitação deve ocorrer nas próximas semanas.

De acordo com o supervisor de ensino Júlio César Dias, um dos colaboradores do Convida na Diretoria Regional de Ensino de Mogi, as escolas da Porteira Preta e do Conjunto Santo Ângelo, que apresentaram problemas com alunos portando arma de brinquedo e canivete, respectivamente, serão prioridades do Conviva neste momento, além da Vania Cassará e Dora Peretti.

“Vamos a estas escolas escutar os alunos e identificar o que precisa ser melhorado no ambiente escolar para resolver os conflitos e, a partir daí, construir um projeto com atividades que sejam significativas para reconstruir as relações interpessoais por meio do diálogo restaurativo, numa perspectiva de uma justiça restaurativa, e criar ações para que possam ressignificar o papel da escola como um local estruturante nas relações deles”, explica.

Escola e família devem se unir

O que leva um adolescente a cometer ato de violência, culminando até em mortes, dentro de uma escola? O questionamento latente traz à tona várias causas envolvendo agressões no ambiente que deveria ser marcado pelo aprendizado, convivência harmoniosa, espírito de equipe, colaboração e amizade.

Entre os principais motivos que podem desencadear situações como esta, a psicóloga e socióloga Marina Alvarenga aponta a transferência do papel da família na educação para os educadores, falta de políticas públicas para uma escola de qualidade, ausência de profissionais como o psicólogo e o assistente social na escola, acúmulo de funções dos educadores, exclusão social, bullying; discriminação e uso de drogas.

Para evitar estas ocorrências, ela avalia que o primeiro ponto é a adoção de políticas públicas para uma educação de qualidade, que realmente propicie condições para que o aluno se forme como cidadão. “Outras ações podem ser a presença efetiva de mediadores de conflitos, o desenvolvimento de uma cultura da paz, a comunicação não violenta, práticas de incentivo à afetividade, a presença de profissionais como psicólogo e o assistente social na escola e melhores condições de trabalho para os educadores, bem como ações de integração dos pais no processo educativo na escola e em casa”, analisa.

A profissional também alerta para problemas recorrentes não apenas nas escolas, como em toda a sociedade. “Todos são iguais perante a lei, mas na prática, alguns são mais iguais do que os outros, por isso problemas como bullying, racismo, homofobia, preconceito racial, intolerância religiosa, entre outros, podem contribuir para atos de violência nas escolas. Essas práticas são enraizadas na sociedade e, infelizmente, a intolerância com o diferente tem se agravado, concomitantemente, os atos de violência ganham mais força numa sociedade mediatizada pelos meios de comunicação. Infelizmente, a escola é uma vitrine dessa violência”, alerta. 

Ainda de acordo com Marina, os jovens estão se familiarizando com a violência, naturalizando-a e todas essas formas de violência refletem, na verdade, o preconceito, o não reconhecimento do outro, numa sociedade narcisista.

A família, na visão da psicóloga, também tem papel fundamental para colaborar com a construção de uma cultura de paz nas escolas. “O primeiro ponto é a família assumir novamente a responsabilidade pela formação inicial dos filhos e não terceirizar a educação, como se fosse responsabilidade da escola”, aponta. 

O diálogo constante entre a escola e a comunidade também é defendido como uma das principais ferramentas contra a violência no ambiente escolar. “Os pais e a comunidade devem ser chamados a participar da escola, desde o planejamento, para que entendam que a escola não é um templo do saber apenas, mas é o local que acolhe as crianças e os jovens para a sua formação. É preciso desenvolver a ideia de que a escola é de todos e para todos, por isso deve ser cuidada por todos”, completa Marina.

massacre na raul brasil

O massacre na escola estadual Professor Raul Brasil, uma das mais tradicionais da rede pública de ensino de Suzano, em 13 de março de 2019, teve grande repercussão nacional e entrou para a história como um dos ataques mais violentos em um ambiente escolar no país.
Por volta das 9h30 deste dia, os ex-alunos da unidade de ensino, Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Henrique de Castro, 25, entraram no local munidos com um revólver e outros apetrechos, como arco e flecha, mataram cinco alunos e duas funcionárias, além de deixarem 11 estudantes feridos. 

Pouco antes, a dupla também tirou a vida do dono de uma loja de automóveis, a poucos quarteirões da escola. Após o massacre, Guilherme matou Henrique e se suicidou.

Após o caso, a escola Raul Brasil passou por ampla reforma, foi revitalizada, ganhou novas salas, banheiros, área de convivência arborizada, bicicletário, entre outras melhorias, além de laboratório  equipado com notebooks, TV e impressora 3D. O projeto do Governo do Estado de São Paulo contou com parceria da iniciativa privada e teve investimento de R$ 2,7 milhões.

Mas a tragédia, que tirou a vida de Caio Oliveira, 15, Cleiton Antonio Ribeiro, 17, Douglas Murilo Celestino, 16, Kaio Lucas Costa Ribeiro, 15, Samuel Melquíades, 16, da inspetora Eliana Regina de Oliveira Xavier, 38, da coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Vieira Umezo, 59, e do lojista Jorge Antonio de Moraes, 51, bem como dos dois jovens assassinos, deixou sequelas difíceis de serem curadas na vida dos familiares e amigos, assim como no dia a dia dos 11 feridos, que conseguiram sobreviver ao ataque, mas tiveram a árdua tarefa de encontrar maneiras para refazer a vida, inclusive para voltar a frequentar os bancos escolares.

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