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Víúva de jornalista conta uma das histórias dos órfãos da Covid

Sem palavras para definir a perda do jornalista Márcio Nogueira, que atuou durante 16 anos na Rádio Metropolitana, em Mogi das Cruzes, Ivete Nogueira, que era casada com ele, concedeu entrevista sobre o momento vivido pela família, que se prepara para seguir em frente, sem a presença de quem a construiu.  O Diário reuniu relatos […]

Por O Diário
03/05/2021 07h48, Atualizado há 63 meses

Sem palavras para definir a perda do jornalista Márcio Nogueira, que atuou durante 16 anos na Rádio Metropolitana, em Mogi das Cruzes, Ivete Nogueira, que era casada com ele, concedeu entrevista sobre o momento vivido pela família, que se prepara para seguir em frente, sem a presença de quem a construiu. 

O Diário reuniu relatos de familiares de vítimas da Covid-19 na região do Alto Tietê (Leia aqui). O psicólogo Luis Sérgio Sardinha, do Centro Universitario Braz Cubas, afirma que o período de luto pode se prolongar, e que a ajuda profissional deve ser procurada quando a pessoa deixa de realizar hábitos rotineiros, como os cuidados com a higiene, alimentação.

Sardinha acredita que a rede de proteção dos que ficaram órfãos de pais, amigos e familiares deve observar comportamentos, que podem indicar ser a hora de dar maior atenção a um indivíduo em depressão ou outro problema emocional. “Se ele quebrou a rotina, deixou de trabalhar, tomar banho, se alimentar, é sinal de alerta. E, se isso persistir, buscar um atendimento especializado”, recomenda.

Sardinha lembra que o choro, o sofrimento após a morte, tem várias fases. “O luto terá de ser vivido”, confirma, acrescentando, no entanto, que a vida precisa seguir. Um exemplo citado por ele é o da dupla Leandro e Leonardo. Um dos irmãos faleceu, e aos poucos, o outro voltou a cantar, retomou a vida.

Veja a entrevista concedida por Ivete Noguiera:

Como você e o Márcio se conheceram?

Na escola, e completamos 25 anos de relacionamento, no dia 1º de fevereiro. Fizemos um bolinho, que o Márcio quis, porque nunca tínhamos comemorado essa data, o início do namoro.

Como era o Márcio?

Desde sempre ele foi muito responsável. Quando eu perdi a minha irmã, nós já estávamos juntos, mas eu também já perdi meus pais e o outro irmão. Ele sempre esteve presente, e ele foi a pior morte da minha vida, foi a dele. Ele era da Lapa, em São Paulo e eu, de São Miguel. Sempre estudamos na mesma escola, na Valquíria Janone Vieira, e começamos a amizade quando tínhamos 16 anos.

Ele sempre quis ser jornalista?

Sim, e eu  costumava falar, que eu me formei por tabela, porque acompanhei todas as fases do jornalismo dele. Por exemplo, quando ele foi para o Tocantins, ele só não permaneceu lá, porque eu não poderia deixar minha família, porque naquele momento, meu pai havia sido internado. Depois de formado, lembro que ele foi fazer uma entrevista em  São José dos Campos. Fomos sem dinheiro nenhum, e só comemos Clube Social, aquele salgadinho. Nunca mais gostamos desse salgadinho, de tanto que comemos. Infelizmente, a vaga era para Esportes, e ele gostava mesmo era da política. Ele trabalhou em outros locais, como o jornal Novo São Paulo, em São Paulo, e também escreveu alguma coisa para jornais como a Ilustrada, da Folha de São Paulo. Depois, permaneceu na Metropolitana, por 16 anos, mas teve um problema grave e decidiu sair, no inicio deste ano.

Vocês dois tiveram a Covid?

Eu também tive a Covid. Na semana que o Márcio foi internado, no dia 13 de março, um sábado, ele havia saído na terça-feira para levar o irmão, o André Luis Nogueira, ao banco. Foi o último dia que ele saiu de casa. Ele era uma pessoa que amava música, tem uma grande coleção de CDs, e nós sempre gostávamos de ficar em casa, na casa da mãe dele, mas na pandemia, isso não foi possível. Na quinta-feira, ele falou que não estava com fome, e eu comentei com a mãe dele, que mandou uma comidinha na sexta-feira, mas ele não estava para muita conversa, voltou a falar que não estava com fome. Eu disse a ele, amanhã, vamos no médico, e ele me disse, ‘só se eu não estiver bem’. Depois, ele acordou bem, conversamos, mas logo ele não conseguia mais andar e não falava coisa com coisa, em pouco tempo, eu chamei minha cunha. O Samu chegou em 20 minutos. Ele pedia para eu não deixá-lo internado, quando ele disse, “daqui a pouco eu volto”, e eu falei, “eu vou te esperar”.

E no hospital, como foi?

Logo a irmã dele disse, que a situação era grave e que poderia ser a variante do vírus. 60% do pulmão estava comprometido, e ele tinha complicadores obesidade mórbida, hipertensão, e descobrimos, pelos exames, que tinha com a diabetes. A Covid avança muito rápida, ele internou no dia 13 e morreu no dia 16.

E você também se infectou?

Sim, e o irmão dele faleceu, alguns dias depois. Eu fiquei no isolamento, e agora estou bem, porém, ainda sinto muito cansaço. A minha filha, Clara, muito madura, não deixou ninguém entrar aqui em casa, era tudo separado, mas foi um tempo terrível.

O que acha sente sobre a Covid e essa pandemia?

É muito difícil explicar. Eu simplesmente não tenho palavras para o que eu sinto. Essa doença tira a vida das pessoas que a gente ama e você não pode se despedir, não pode ver no caixão, e nem ver os meus filhos, não pude dar um abraço os meus filhos, quando o pai deles morreu. Não pude consolar a minha filha.

Como o Márcio via a pandemia?

Ele morria de medo, tinha medo, mas, tenho de dizer, ele detestava usar máscara, quando a gente saía, era uma guerra, e nós, às vezes, precisávamos sair, porque estamos montando uma sorveteria. Minha filha brigava com ele, mas ele dizia que atrapalhava a respiração, que não conseguia ficar com a máscara, mas se cuidava, não saía, sempre mandava todos lavarem a mão, trocar de roupa, usar o álcool.

Ele também perdeu o irmão…

Sim, e nós temos a dona Graça, a mãe dele, é muito difícil porque não podemos ir vê-ala, temos medo, e ela está sofrendo muito.

E como será daqui para frente?

A gente vai manter o que ele planejou, montar a sorveteria, a Favorita, na Nova Poá, bairro que residimos, e ela  será diferenciada, não vai ter muitas mesas, será em um espaço mais reservada. Agora, estamos cuidando das questões legais, a pensão para os filhos, o seguro-desemprego, porque eu estou sem renda, hoje.

Como chegaram o Pietro e o Rodrigo?

Era um sonho dele, do Márcio, que eu também sonhei e que se tornou realidade porque a Clara, também quis. Nesta família, tudo é decidido junto. As crianças chegaram em 2017, mas somente agora tivemos a documentação definitiva.

Agora, a família está com você?

Eu sempre converso, com eles, eu sempre tive muito medo, deles se perderem, eles vieram, e nós sempre mostramos o que era melhor, não o que era certo. Mas, sinceramente, eu tenho medo, porque a imagem, a visão, a convivência, com um pai, e pode até parecer machista, a família está completa, com o pai e a mãe, e os filhos. Eu tenho medo de errar, de cobrar demais, e de, futuramente, eles me cobrarem essa figura masculina, porque é muito confuso para eles. E tudo muito complicado, eu tenho muito apoio da sogra, da minha cunhada, dos familiares, mas quando fecho as portas, eu tenho de corrigir, ensinar e cobrar”.

A vida segue.

Eu acredito muito no ensino espírita, eu acho que o Márcio está olhando por nós, eu acredito nesse ensinamento. Por isso, esse projeto vai ter de continuar, sem ele, não tenho o que fazer, eu falava com as crianças e para ele, dava uma bronca, aí,ele dizia, você pega pesado, eles saíram do abrigo, e eu brincava que eles prefiram ele. Agora, seremos nós. Não tive muito tempo nem para chorar. Depois que ele morreu, no dia 16, pensei, que vivemos juntos 25 anos, sem brigar, sem dormir separado, sempre vivemos juntos. Nós vamos seguir, a Clara, vai estudar Pedagogia ou Psicologia.

Quais serão as lembranças do Márcio?

O Márcio é o Márcio. Quando um vizinho nosso morreu, ele escreveu um texto muito bonito, dizendo que todo mundo culpa o governo, culpa a doença, só que pelo o que a gente conversava, era que ninguém está pensando nada, fazendo nada por ninguém. Eu acho que o Márcio estava muito triste, muito desanimado. Foi muito difícil o isolamento, ficar trancado, não levar as crianças para passear. Isso o deixava triste, ver as coisas acontecendo, a doença, e não poder fazer nada. Ficará do Márcio a bondade dele. Algumas vezes, ele ligava à noite e dizia, “vem me buscar”, e eu falava, como assim? Ele me explicava que alguém pediu na rua ou precisava para comprar um remédio e ele dava, e ficava sem dinheiro para tirar o carro do estacionamento. Ele também sempre ajudou as pessoas. A nossa família sempre adotou alguém. A família, aliás, é nossa força. E isso é complicado, na pandemia, eu não pude abraçar meus amigos, meus familiares.

 

 

 

Sardinha acredita que a rede de proteção dos que ficaram órfãos de pais, amigos e familiares deve observar comportamentos, que podem indicar ser a hora de dar maior atenção a um indivíduo em depressão ou outro problema emocional. “Se ele quebrou a rotina, deixou de trabalhar, tomar banho, se alimentar, é sinal de alerta. E, se isso persistir, buscar um atendimento especializado”, recomenda.

Sardinha lembra que o choro, o sofrimento após a morte, tem várias fases. “O luto terá de ser vivido”, confirma, acrescentando, no entanto, que a vida precisa seguir. Um exemplo citado por ele é o da dupla Leandro e Leonardo. Um dos irmãos faleceu, e aos poucos, o outro voltou a cantar, retomou a vida.

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